Um dia desses nessa semana fui comprar um café na pastelaria que fica ao lado da faculdade. Lá, estavam, na fila, duas meninas. Ambas eram baixas, de uns 20 anos de idade. Aparentavam ser estudantes. Uma delas usava uma jaqueta jeans. Percebi que a jaqueta estava apenas apoiada sobre os ombros. As mangas pendiam vazias no espaço.

Elas pediram qualquer coisa, eu pedi o meu café e tudo terminaria aí. Quando me virei para sair, no entanto, as duas estavam na porta, num canto, conversando. Apenas uma delas segurava o que haviam pedido, um salgado ou suco, não importa. A outra, a da jaqueta jeans, não segurava nada. E lá estavam os dois braços de pano soltos, suspensos. Então me dei conta do que se passava: a menina simplesmente não tinha braço algum.

Faltava volume sob a jaqueta, no lugar em que os dois braços deveriam naturalmente estar. Nada havia ali, apenas os ombros, que terminavam, deduzi, em dois cotocos impotentes.

Aquelas mangas frouxas e vazias, que balançavam com o movimento do corpo, me doeram muito. Pisei na calçada sem prestar atenção em nada. Via apenas aqueles braços invisíveis, inexistentes, absolutamente inúteis. Uma tristeza enorme me invadiu e senti uma pena enorme por aquela menina. Por que ela não tinha braços? Essa pergunta doía na minha cabeça.

Meu pai, há alguns anos, sofreu um acidente no qual ele perdeu o movimento do braço direito. Eu tenho certa ideia, por causa disso, de como é difícil a vida sem um braço: não se pode amarrar os cadarços, abrir um pote bem fechado, cortar um pedaço de carne, apertar um parafuso, trocar a marcha do carro. Tudo é limitado pela falta do segundo membro. Mas ele ainda tem um braço e pode se virar, não é uma vida impossível.

Mas e essa menina, que não tinha braço nenhum? Ela sequer podia segurar o suco que havia pedido, ou o salgado que gostaria de comer. Ela não pode usar talheres: precisa levar a boca à comida como um animal. Não pode se limpar no banheiro. Não pode trocar o canal da televisão. Não pode segurar um livro ou digitar um texto. Não pode acariciar um cãozinho, folhear um jornal ou se coçar. Não pode puxar a coberta, à noite, quando sente frio. Ela não pode sequer fazer um telefonema para a mãe ou abrir uma porta. Uma tristeza impossível de traduzir me invadiu e o mero fato de eu poder segurar um copo de café, um ato tão inocente, parecia-me uma provocação a tão triste destino.

No entanto, ela estava lá, com sua amiga, falando, aparentemente feliz, naquele momento, a jaqueta encobrindo a triste ausência dos braços. E eu imaginei que, provavelmente, sua amiga iria lhe alcançar o suco ou levar-lhe à boca um pedaço do salgado, como se se tratasse de alimentar um passarinho frágil.

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