Nesta semana o escritor Raduan Nassar recebeu o Prêmio Camões de Literatura. Durante a cerimônia, Nassar resolveu fazer um “discurso de resistência” contra o governo, criticando duramente o que ele considera ser uma ditadura golpista repressiva. No melhor estilo Meryl Streep de insubordinação, Nassar teve a coragem de, ao mesmo tempo, embolsar o cheque de 100 mil euros do prêmio e boquejar sua visão torta do mundo para uma plateia de esquerdistas igualmente torta. Obviamente, foi aplaudido efusivamente pelos presentes.

Em seguida ao ato de rebeldia do escritor que não escreve nada há mais de 30 anos, o ministro da Cultura expressou, de forma bastante sensata, que era lamentável Nassar, que viveu sob a ditadura militar, dizer que o governo atual é “repressivo”. O ministro foi execrado pela audiência, a qual, para a surpresa de ninguém — afinal, tratava-se de um evento de “artes e literatura” –, concordava com as opiniões do delirante premiado, ou seja, qualquer governo que não seja petista é ilegítimo. O ministro foi o único ali que teve a coragem de tomar a palavra para dissentir e, por isso, foi vaiado pelos literatos.

Vale notar que o prêmio Camões vem se tornando notório pela estúpida escassez de talentos no cenário literário lusófono, a ponto de se tornar uma espécie de campeonato do “menos pior”. Depois de Rubem Fonseca e Ferreira Gullar, acabaram-se as opções decentes para premiação. Basta ver os últimos eleitos: Mia Couto, Dalton Trevisan etc. Alberto da Costa e Silva foi o último brasileiro, se não me engano, a recebê-lo. A questão, porém, é que se trata antes de tudo de um historiador e ensaísta, e não de um literato.

De qualquer forma, os últimos escritores de literatura que o receberam eram todos menores, repetitivos, pouco criativos, em uma palavra, medíocres. Jamais alcançariam qualquer reconhecimento não fosse a anemia cultural contemporânea, que torna excelente quem é apenas razoável. Diante dessa paisagem fantamasgórica, povoada apenas por pálidas sombras escrevinhadoras, sobram só os Raduans e Daltons da vida. Que seja: trata-se da prata da casa. Mas, pelo menos, Dalton Trevisan não fez um “discurso de resistência”, como Raduan. Provavelmente nem foi à premiação, antissocial que é.

Ainda que Raduan Nassar fosse o José Guimarães Rosa de nossos dias, seu discurso faria feia figura do mesmo modo. A diminuta estatura literária de Nassar apenas contribui para tornar o efeito final mais desastroso. Se Nassar tivesse um mínimo de coerência moral, abriria mão do prêmio. Não o fez. O grande homem preferiu fazer um bravíssimo discurso de resistência sem pé nem cabeça para uma plateia amestrada, pegar o dinheiro e zarpar para sua fazenda, para fazer o que faz há décadas: não escrever nada.

Nassar viveu durante a ditadura militar. Não sei exatamente como, nem me importa. Não sei se foi preso ou sofreu qualquer coação do governo. Não obstante, por mais delirante que seja, ele deve ter alguma ideia, ainda que primitiva, de como funciona uma ditadura. Em primeiro lugar, ditaduras não premiam escritores que não concordem com elas. Tratasse-se de uma ditadura e Nassar teria ido embora de outro modo e sabe-se lá onde teria ido parar. Com certeza não sem sua fazenda.

Qualquer pessoa decente, que esteja com os miolos saudáveis sabe, muitíssimo bem, que o Brasil não é uma ditadura. O Brasil é um regime de institucionalidade precária, principalmente no que diz respeito ao sistema legislativo, sendo que a principal causa da anomia, a meu ver, reside na proporcionalidade do sistema eleitoral para a Câmara de Deputados e, também, na falta de autonomia dos entes federativos. E somos corroídos por uma persistente desigualdade econômica e pela ausência de uma elite responsável.

Nassar, porém, não gosta de conversas complicadas: “é golpe”, segundo ele. Ele se esquece, porém, que o governo que desabou moribundo há meio ano atrás era formado por um bando de mercenários. Mantê-lo, isso sim, seria um golpe.

Está mais do que provado e explicado: Dilma Rousseff, cometeu numerosas manobras fiscais para maquiar as contas públicas, principalmente o superávit primário. Raduan Nassar, como todo escritor metiado à besta, não deve saber o que é um superávit primário. Antes que ele vá consultar a Wikipedia, adianto-lhe que não fazer o superávit primário e, pior, maquiá-lo, é crime de responsabilidade. É conduta contrária à Constituição e contrária à Lei de Responsabilidade Fiscal.

Trata-se, realmente, de um desatino que ainda se discuta a tese do golpe. E é um desatino ainda maior que essa tese seja requentada por um escritor apenas razoável, cujo conhecimento a respeito de direito, economia e contas públicas é nulo e que está embolsando algumas centenas de milhares de dinheiro público. Deveria, pelo menos, ter recusado o prêmio — pois se o recebe é porque compactua com o que critica. Quer dizer: Nassar diz que o governo é ditatorial; não obstante, pega o dinheiro oferecido pelo mesmo governo. Isso beira a falta de caráter. Se se trata de uma “ditadura repressiva”, o dever de qualquer homem honesto é recusar o prêmio.

E se alguém ainda tem qualquer dúvida a respeito do crime de responsabilidade que fez o governo cair, os esquemas de adulteração das contas públicas estão todos narrados no livro “Anatomia de um desastre”, escritos por três jornalistas d’O Valor Econômico, incluindo Ribamar Oliveira, quem primeiro desvendou o truque das pedaladas fiscais (apenas um dos muitos expedientes de contabilidade criativa empregados pelo governo). Eles, óbvio, jamais ganharão um Camões.

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