O esquerdismo é um estado mental

Deve-se compreender que o esquerdismo é um estado mental. Se você aceitar esse fato, será poupado de diversas situações desconfortáveis e passará bem menos raiva.

Apenas uma parcela ínfima das pessoas que se tornaram de esquerda o fizeram por motivos racionais, isto é, após exaustiva pesquisa e ponderação. A maior parte delas é de esquerda porque se sentem bem assim e nada nesse planeta, nem mesmo Jesus Cristo reencarnado, poderá convencê-las do contrário.

A verdade seja dita: as ideologias que seguimos são, em boa parte, produtos do acaso. Creio que fatores genéticos devem explicar pelo menos metade das opções políticas de cada um. Por outro lado, uma série de acidentes da vida também exerce alguma influência sobre o caráter político de cada um: o ambiente familiar, a posição socioeconômica, os professores etc. São fatores aleatórios, fora de nosso controle.

Ideologias são quase como times de futebol: por que alguém torce para o Vasco e não para o Flamengo? Sabe-se lá. Pensa-se que a orientação política é escolhida após longa consideração intelectual. Isso é, na maior parte dos casos, falso.

A ideologia também lembra o futebol porque, quando o time para o qual torcemos está atravessando uma fase ruim, não deixamos de ser seus torcedores. Na verdade, alguns ficam ainda mais fanáticos quando seu time passa por dificuldades. O fato de o Vasco ser rebaixado não transformará vascaínos em flamenguistas.

De forma semelhante, quando nossa ideologia prova ser uma tragédia — como acontece hoje na Venezuela, onde a classe média come cachorros e procura restos no lixo –, dificilmente a abandonamos. Pelo contrário, iremos defendê-la ainda mais apaixonadamente, colericamente talvez. Por isso os socialistas jamais admitem que seus planos econômicos são impossíveis. Toda vez que um regime socialista naufraga, aparecem as justificativas de sempre: “não era realmente socialismo”, “foi o embargo americano”, “a elite era corrupta”, “o preço do petróleo caiu”, “sabotagem do capitalismo financeiro” etc. Jamais se admite que o problema é endógeno: sempre aparece uma entidade maléfica estrangeira que estraga a festa.

Há exceções. É possível mudar de ideologia (como é possível mudar de time de futebol, acho) ao se perceber que a opção original era uma furada. Há alguns casos; por exemplo, me recordo agora do Fernando Gabeira e do Vargas Llosa. A maioria das vezes, porém, não há remédio.

E não nos enganemos. Em menor medida, o liberalismo também funciona assim. Mas o número de pessoas que são racionalmente liberais é bem maior que o daquelas que são racionalmente socialistas, isto é, que acham que o socialismo é cientificamente correto. A razão é que o socialismo é muito mais sedutor que o liberalismo. Quase ninguém é liberal por instinto.

O liberalismo é uma ideologia boring, burguesa. Não há nele qualquer heroísmo. Não há Che Guevara subindo serras, Mao marchando milhas e milhas, Stalin e Lenin lutando contra os reacionários. Claro, houve heroísmo, por exemplo, por parte dos founding fathers, mas é uma história que se relaciona muito mais à nação americana do que à humanidade em geral. Qual a emoção que Locke ou Hayek transmitem? Nenhuma. E qual a emoção que o manifesto de Marx e Engels transmite? Muitíssima. Em resumo, defender a propriedade privada é chato; pregar a revolução proletária, epopeico.

É natural, portanto, que jovens se interessem pelo socialismo e não pelo liberalismo, assim como preferem ouvir Metallica a Bach. Na maior parte das vezes, a posição automática de toda pessoa é o socialismo, pois a maioria das pessoas repudia a injustiça e o socialismo, aparentemente, oferece uma solução adequada e rápida para esse problema. O socialismo, além disso, fornece uma narrativa completa da história e um lugar no mundo para cada um. É uma doutrina confortável e holística, que facilmente se confunde à fé religiosa. A visão utópica de uma sociedade sem Estado, no qual as transações não serão mediadas pelo dinheiro, mas por amor, encanta qualquer um. A concepção pessimista do conservadorismo e o realismo pragmático do liberalismo são, comparativamente, impopulares.

Dessa forma, é apenas mais tarde que uma pessoa, eventualmente, acaba se tornando liberal. Há alguns liberais e conservadores de nascença, mas são raros. O liberal normal se tornou liberal porque leu, pensou, discutiu e acabou desistindo da utopia. A experiência de vida, com suas decepções e amarguras, nos torna menos propensos a acreditar no conto de fadas socialista, também.

Como dizia, o esquerdismo é um estado mental, não uma opção racional. Sendo assim, é quase impossível travar qualquer discussão frutífera com um socialista, porque se trata de um credo, não de um conjunto de proposições que podem ser testadas contra a realidade. Ideias bonitas prevalecem sobre dados concretos e argumentos lógicos. Não se trata de um debate regulado pela razão, mas pela paixão, que só ganha quem grita mais alto e apela aos mais toscos sentimentos da plateia.

Observação #1

Apenas uma observação: alguns juristas falam que o juiz deve cessar de ser um “convidado de pedra”. Acho essa frase esquisita.

Até onde sei, o termo “convidado de pedra” se refere ao fantasma do homem que don Juan mata e que retorna, no final da história, para tragá-lo ao inferno. O que isso tem a ver com um juiz, eu não sei.

Uma ida ao café

Um dia desses nessa semana fui comprar um café na pastelaria que fica ao lado da faculdade. Lá, estavam, na fila, duas meninas. Ambas eram baixas, de uns 20 anos de idade. Aparentavam ser estudantes. Uma delas usava uma jaqueta jeans. Percebi que a jaqueta estava apenas apoiada sobre os ombros. As mangas pendiam vazias no espaço.

Elas pediram qualquer coisa, eu pedi o meu café e tudo terminaria aí. Quando me virei para sair, no entanto, as duas estavam na porta, num canto, conversando. Apenas uma delas segurava o que haviam pedido, um salgado ou suco, não importa. A outra, a da jaqueta jeans, não segurava nada. E lá estavam os dois braços de pano soltos, suspensos. Então me dei conta do que se passava: a menina simplesmente não tinha braço algum.

Faltava volume sob a jaqueta, no lugar em que os dois braços deveriam naturalmente estar. Nada havia ali, apenas os ombros, que terminavam, deduzi, em dois cotocos impotentes.

Aquelas mangas frouxas e vazias, que balançavam com o movimento do corpo, me doeram muito. Pisei na calçada sem prestar atenção em nada. Via apenas aqueles braços invisíveis, inexistentes, absolutamente inúteis. Uma tristeza enorme me invadiu e senti uma pena enorme por aquela menina. Por que ela não tinha braços? Essa pergunta doía na minha cabeça.

Meu pai, há alguns anos, sofreu um acidente no qual ele perdeu o movimento do braço direito. Eu tenho certa ideia, por causa disso, de como é difícil a vida sem um braço: não se pode amarrar os cadarços, abrir um pote bem fechado, cortar um pedaço de carne, apertar um parafuso, trocar a marcha do carro. Tudo é limitado pela falta do segundo membro. Mas ele ainda tem um braço e pode se virar, não é uma vida impossível.

Mas e essa menina, que não tinha braço nenhum? Ela sequer podia segurar o suco que havia pedido, ou o salgado que gostaria de comer. Ela não pode usar talheres: precisa levar a boca à comida como um animal. Não pode se limpar no banheiro. Não pode trocar o canal da televisão. Não pode segurar um livro ou digitar um texto. Não pode acariciar um cãozinho, folhear um jornal ou se coçar. Não pode puxar a coberta, à noite, quando sente frio. Ela não pode sequer fazer um telefonema para a mãe ou abrir uma porta. Uma tristeza impossível de traduzir me invadiu e o mero fato de eu poder segurar um copo de café, um ato tão inocente, parecia-me uma provocação a tão triste destino.

No entanto, ela estava lá, com sua amiga, falando, aparentemente feliz, naquele momento, a jaqueta encobrindo a triste ausência dos braços. E eu imaginei que, provavelmente, sua amiga iria lhe alcançar o suco ou levar-lhe à boca um pedaço do salgado, como se se tratasse de alimentar um passarinho frágil.

Raduan Nassar, a Meryl Streep brasileira

Nesta semana o escritor Raduan Nassar recebeu o Prêmio Camões de Literatura. Durante a cerimônia, Nassar resolveu fazer um “discurso de resistência” contra o governo, criticando duramente o que ele considera ser uma ditadura golpista repressiva. No melhor estilo Meryl Streep de insubordinação, Nassar teve a coragem de, ao mesmo tempo, embolsar o cheque de 100 mil euros do prêmio e boquejar sua visão torta do mundo para uma plateia de esquerdistas igualmente torta. Obviamente, foi aplaudido efusivamente pelos presentes.

Em seguida ao ato de rebeldia do escritor que não escreve nada há mais de 30 anos, o ministro da Cultura expressou, de forma bastante sensata, que era lamentável Nassar, que viveu sob a ditadura militar, dizer que o governo atual é “repressivo”. O ministro foi execrado pela audiência, a qual, para a surpresa de ninguém — afinal, tratava-se de um evento de “artes e literatura” –, concordava com as opiniões do delirante premiado, ou seja, qualquer governo que não seja petista é ilegítimo. O ministro foi o único ali que teve a coragem de tomar a palavra para dissentir e, por isso, foi vaiado pelos literatos.

Vale notar que o prêmio Camões vem se tornando notório pela estúpida escassez de talentos no cenário literário lusófono, a ponto de se tornar uma espécie de campeonato do “menos pior”. Depois de Rubem Fonseca e Ferreira Gullar, acabaram-se as opções decentes para premiação. Basta ver os últimos eleitos: Mia Couto, Dalton Trevisan etc. Alberto da Costa e Silva foi o último brasileiro, se não me engano, a recebê-lo. A questão, porém, é que se trata antes de tudo de um historiador e ensaísta, e não de um literato.

De qualquer forma, os últimos escritores de literatura que o receberam eram todos menores, repetitivos, pouco criativos, em uma palavra, medíocres. Jamais alcançariam qualquer reconhecimento não fosse a anemia cultural contemporânea, que torna excelente quem é apenas razoável. Diante dessa paisagem fantamasgórica, povoada apenas por pálidas sombras escrevinhadoras, sobram só os Raduans e Daltons da vida. Que seja: trata-se da prata da casa. Mas, pelo menos, Dalton Trevisan não fez um “discurso de resistência”, como Raduan. Provavelmente nem foi à premiação, antissocial que é.

Ainda que Raduan Nassar fosse o José Guimarães Rosa de nossos dias, seu discurso faria feia figura do mesmo modo. A diminuta estatura literária de Nassar apenas contribui para tornar o efeito final mais desastroso. Se Nassar tivesse um mínimo de coerência moral, abriria mão do prêmio. Não o fez. O grande homem preferiu fazer um bravíssimo discurso de resistência sem pé nem cabeça para uma plateia amestrada, pegar o dinheiro e zarpar para sua fazenda, para fazer o que faz há décadas: não escrever nada.

Nassar viveu durante a ditadura militar. Não sei exatamente como, nem me importa. Não sei se foi preso ou sofreu qualquer coação do governo. Não obstante, por mais delirante que seja, ele deve ter alguma ideia, ainda que primitiva, de como funciona uma ditadura. Em primeiro lugar, ditaduras não premiam escritores que não concordem com elas. Tratasse-se de uma ditadura e Nassar teria ido embora de outro modo e sabe-se lá onde teria ido parar. Com certeza não sem sua fazenda.

Qualquer pessoa decente, que esteja com os miolos saudáveis sabe, muitíssimo bem, que o Brasil não é uma ditadura. O Brasil é um regime de institucionalidade precária, principalmente no que diz respeito ao sistema legislativo, sendo que a principal causa da anomia, a meu ver, reside na proporcionalidade do sistema eleitoral para a Câmara de Deputados e, também, na falta de autonomia dos entes federativos. E somos corroídos por uma persistente desigualdade econômica e pela ausência de uma elite responsável.

Nassar, porém, não gosta de conversas complicadas: “é golpe”, segundo ele. Ele se esquece, porém, que o governo que desabou moribundo há meio ano atrás era formado por um bando de mercenários. Mantê-lo, isso sim, seria um golpe.

Está mais do que provado e explicado: Dilma Rousseff, cometeu numerosas manobras fiscais para maquiar as contas públicas, principalmente o superávit primário. Raduan Nassar, como todo escritor metiado à besta, não deve saber o que é um superávit primário. Antes que ele vá consultar a Wikipedia, adianto-lhe que não fazer o superávit primário e, pior, maquiá-lo, é crime de responsabilidade. É conduta contrária à Constituição e contrária à Lei de Responsabilidade Fiscal.

Trata-se, realmente, de um desatino que ainda se discuta a tese do golpe. E é um desatino ainda maior que essa tese seja requentada por um escritor apenas razoável, cujo conhecimento a respeito de direito, economia e contas públicas é nulo e que está embolsando algumas centenas de milhares de dinheiro público. Deveria, pelo menos, ter recusado o prêmio — pois se o recebe é porque compactua com o que critica. Quer dizer: Nassar diz que o governo é ditatorial; não obstante, pega o dinheiro oferecido pelo mesmo governo. Isso beira a falta de caráter. Se se trata de uma “ditadura repressiva”, o dever de qualquer homem honesto é recusar o prêmio.

E se alguém ainda tem qualquer dúvida a respeito do crime de responsabilidade que fez o governo cair, os esquemas de adulteração das contas públicas estão todos narrados no livro “Anatomia de um desastre”, escritos por três jornalistas d’O Valor Econômico, incluindo Ribamar Oliveira, quem primeiro desvendou o truque das pedaladas fiscais (apenas um dos muitos expedientes de contabilidade criativa empregados pelo governo). Eles, óbvio, jamais ganharão um Camões.